As Oportunidades no Mercado de Quadrinhos no Brasil

Existem pessoas que acreditam que somente os mais talentosos fazem sucesso, que o Monstro do Lago Ness existe e que não há mercado brasileiro de quadrinhos. Superstição ou desinformação, não importa, elas estão sendo enganadas. Referente a primeira conversaremos em outro momento, quanto à segunda criptozoologia não é minha área, porém sobre quadrinho nacional, o momento é esse.

Poderíamos falar da primeira história publicada no Brasil em 1869; debater sobre como a “caça as bruxas” aos quadrinhos na década de 50 nos Estados Unidos nos influenciou negativamente; ou as dificuldades enfrentadas pelos profissionais da área durante a ditadura militar brasileira, contudo estamos aqui para falar do momento atual, estável e crescendo em diversidade de uma forma nunca antes vista.

Desbravadores bandeirantes da nanquim, tais como Cláudio Seto, Laerte e Mauricio de Sousa, abriram possibilidades e ainda o fazem por nós. Desse grupo, destaca-se o proprietário da MSP (Mauricio de Sousa Produções), que apresentasse ainda mais do que como quadrinista de sucesso, um empresário de sucesso.

Com um vasto número de funcionários, entre eles principalmente desenhistas e roteiristas, seu estúdio se mantém de forma constante com suas portas abertas, disponibilizando testes para os interessados. Outra grande oportunidade da MSP são os projetos elaborados pelo jornalista Sidney Gusman, como a trilogia de álbuns Mauricio de Sousa por 50 Artistas e atualmente as graphic novels, como Astronauta – Magnetar, Turma da Mônica – Laços, Chico Bento – Pavor Espaciar e Piteco – Ingá, divulgando diversos artistas menos conhecidos e elevando nosso quadrinho para a maior parte do público brasileiro como algo mais do que apenas “entretenimento barato”, transformando-o em material de qualidade, a altura de seus “irmãos estrangeiros”.

Outra agradável surpresa é o lançamento de Valente de Vitor Cafaggi (co-autor de Laços e criador de As Incríveis Aventuras do Pequeno Parker) pela editora Panini. Mesma editora responsável pela publicação das obras da MSP, a iniciativa da Panini é sinônimo que a empresa italiana começa a ver um promissor mercado nacional, não se restringindo mais apenas a títulos japoneses, da Marvel e DC.

Outra editora maior que possui um forte apelo com os quadrinhos brasileiros é a editora HQM. Responsável pelo quadrinho de The Walking Dead (publicado aqui como Os Mortos Vivos), a empresa lançou desde obras de peso nacional como Leão Negro e Zoo, a artistas novatos, não restringindo qualquer tipo de estilo, como nas HQs Vitral, Príncipe do Best Seller e Vidas Imperfeitas, todas seguindo as tendências dos quadrinhos nipônicos.

É curioso notar que essa última, Vidas Imperfeitas, foi originalmente lançada como quadrinho independente e disponibilizada de forma gratuita na internet, o que colaborou na divulgação do projeto, sendo inclusive publicado por uma editora nos EUA antes do que no próprio Brasil. Mas não é de hoje que o mercado americano vem recebendo nossos talentos. Holy Avenger, da dupla Marcelo Cassaro e Erica Awano, há muito ganhou sua versão em inglês. Atualmente Awano ilustra diretamente para o mercado internacional, tal como outros artistas. Mike Deodato Jr, Cris Peter e Ed Benes são exemplos de profissionais que figuram nas equipes da DC e da Marvel há anos.

Os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá também conquistaram renome internacional com a obra lançada pelo antigo selo adulto da DC, a Vertigo, com o quadrinho Daytripper, no qual contam a história de um obituarista que sonha em ser escritor, sem saber onde sua vida começou realmente, totalmente ambientada no Brasil.

Contudo não é apenas por editoras que nosso mercado é formado. Grupos como Petisco e Quarto Mundo são muito importantes para divulgação dos quadrinhos independentes. Lançados por seus próprios autores, essas histórias não são submetidas às exigências das editoras, necessitando apenas da disposição e vontade do autor, frequentemente com a ajuda de outros companheiros quadrinistas que os apóiam e aconselham para lançar suas obras. Obviamente demanda maiores dificuldades, pois não haverá profissionais de diversas áreas para editar e divulgar o material, porém representa maior lucro para o autor, pois consequentemente não têm de pagar o trabalho de várias pessoas.

Dessa forma são lançados quadrinhos impressos com tiragens limitadas, em torno de mil exemplares, algumas vezes posteriormente disponível de forma online também, como a HQ Nanquim Descartável, história de Daniel Esteves com colaboração de diversos ilustradores.

Apesar disso, muitos quadrinhos são lançados diretamente e quase que exclusivamente na internet, meio que vem dando grande apoio e força para os quadrinistas. Exemplos famosos são as webcomics Malvados, Dr. Pepper e Um Sábado Qualquer. Seu lucro não provém diretamente do quadrinho, mas de produtos licenciados (canecas, camisetas, caderno, etc) e propagandas (exemplo da principal fonte de renda da MSP atualmente, com mais de 500 produtos licenciados e com o “garoto-propaganda” mais antigo do Brasil, o Jotalhão). Dessas webcomics, sua maioria é focada no humor, porém não é necessário limitar-se, a exemplo temos XDragoon, Terapia e antologias como a Conexão Nanquim.

Desses últimos gibis podemos citar um recurso de publicação impressa que também vêm se popularizando cada vez mais: o financiamento através dos fãs. No Brasil o principal meio é o site de financiamento coletivo Catarse, no qual alguém elabora um projeto e o submete a aprovação. Com a confirmação, o projeto fica no ar por até 60 dias, recompensando os apoiadores conforme o valor oferecido.

Diversas HQs foram publicadas no último ano através do site, que também oferece o serviço para inúmeras outras áreas, tais como jornalismo, arquitetura e negócios sociais; reembolsando o valor apoiado para os colaboradores caso o projeto não seja aprovado, o que gera credibilidade e maior oportunidade de novos investidores.

No meio termo dessa linha temos a webcomics Ledd, de J.M. Trevisan e Lobo Borges e em breve Holy Avenger: Paladina, novamente com Cassaro e Awano. Lançado em capítulos e posteriormente compilado e publicado em volumes fechados pela Jambô Editora, em um esquema parecido com o que ocorre com os quadrinhos no Japão.

Mas não só da iniciativa privada ou pessoal que o quadrinho tem avançado no Brasil. Um exemplo é o concurso nacional de histórias em quadrinho do município de Ponta Grossa no Paraná, realizado anualmente; e o forte investimento cultural do estado de São Paulo através do ProAC. O ProAC (Programa de Ação Cultural) é o maior apoiador nacional de quadrinhos que existe até o momento. Atualmente financia 15 projetos por ano, oferecendo 40 mil reais para cada obra aprovada. Através do ProAC surgiram inúmeras obras de altíssima qualidade, como Crônicas da Pindahyba, Dom Casmurro e Orixás – do Orum ao Ayê; esses dois últimos sendo inclusive publicados através de editoras, respectivamente pela Devir e pela Marco Zero (selo infanto-juvenil da editora Nobel).

Outro forte investimento do governo na área é mais indireto, contudo muito produtivo. Através do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), que todo ano seleciona obras para as bibliotecas dos colégios públicos, muitos quadrinhos chegam as mãos de leitores novatos, ação governamental que gera grandes impressões das obras selecionadas e oportunidade das histórias abrangerem muito mais usuários. Nesse caso o quadrinho tem de estar pronto, havendo ainda uma insistente e relutante preferência por adaptações literárias, fato que necessita ser revisto, mas que ainda não deixa de ser uma grande oportunidade financeira e de divulgação para os autores.

Então o que está esperando? Afinal uma história em quadrinho não existe enquanto está apenas na sua cabeça ou pronta e trancada em uma gaveta da sua escrivaninha, ela foi produzida para ser lida, indiferente o meio que você escolha para divulgá-la. Seja através de fotocópia, internet ou fazendo aquela única cópia circular de mão em mão, não importa, é a partir desse momento que ela vira uma história de verdade, afinal histórias foram feitas para serem contadas.

E você, já contou sua história hoje?

Por: Renato Hack

Comente